abril 14, 2005

‘Indirectos’ no Mag@nice

Costumo dizer que apanhei o hábito de conversar quando ingressei na tropa e o vício do debate quando fui obrigado a ir para África, onde estive, no Luena, capital da província do Moxico, durante vinte meses. Até àquela altura era mais dado a ouvir os mais velhos contarem as suas estórias ou exporem as suas ideias.
Agora, delicio-me com a leitura de textos, como o que o meu amigo Luís Cruz, também ele um “luena”, debitou no seu Maganice.

“Ontem tivemos mais uma reunião não na S.R.U.C.B.A.(*), mas no largo do coreto. É mau presságio quando as reuniões começam a realizar-se com alguma regularidade conforme está a acontecer, o que significa que o povo anda preocupado. Desta vez a reunião teve por objectivo discutir a opinião dos economistas sobre a necessidade de subir impostos e porque já anda muita gente entendida a mexer na lenha, os populares preocupam-se porque sabem que o resultado é sempre o mesmo: que quem se lixa é o mexilhão.


“O Beto chouriço, que é o mais letrado aqui da aldeia, disse que leu no jornal a opinião de um antigo ministro das Finanças que defende, entre outras coisas, a passagem do IVA de 5% (esta aplica-se a muitos produtos alimentares e a medicamentos) e de 12%, para a taxa máxima – 19%, mas referiu o problema que a medida provocará nas pessoas com baixo rendimento. Adiantou ainda, e muito bem, que segundo a teoria económica nenhum imposto indirecto deve ter a mesma taxa para todos e que antes pelo contrário deve subsidiar directamente quem necessita. Está certo. O problema é que a populaça mafiosa está habituada às golpadas e o que vai acontecer é que os mais desfavorecidos pagarão a factura e os possuidores de negócios próprios arranjam facilmente um processo qualquer de fugir com o cu à seringa – palavras do Beto chouriço. Como exemplo citou as Bolsas de estudo que se destinam, em princípio, a favorecer os estudantes filhos de gente com menores rendimentos. Na prática a coisa, apesar de ser analisada, acaba por beneficiar os que necessitam e os golpistas, porque um trabalhador por conta de outrem declara os valores verdadeiros e a sua relação de rendimentos-despesas pode não ser favorável a suportar os custos de um filho na Universidade, mas como aufere valor superior ao rendimento mínimo não tem direito à Bolsa, enquanto que o indivíduo que é “empresário” pode declarar o rendimento mínimo e já está ganhador de uma Bolsa para o menino que vai para as aulas de Porche, coitadinho.

“Disse ainda o Beto chouriço na reunião que não vale a pena ter ilusões e faça-se o que se fizer há sempre um português desconhecido que dá a volta ao texto. Para deixar bem clara a sua tese avançou para a assembleia com o exemplo das inspecções aos veículos automóveis que sendo obrigatórias há 150.000 que fogem dela. Há coimas para os apanhados, o maior problema é que muitos nunca o são. A terminar manifestou o seu repúdio em relação à classificação de “impostos indirectos” e justificou que o termo indirecto não está correctamente aplicado porque vai afectar sempre os mesmos, logo a forma correcta é – directo.

”O povo é magano.”

* S.R.U.C.B.A. – Sociedade Recreativa União Capricho Bota Abaixo.

Publicado por dizerbem em abril 14, 2005 12:17 AM
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